Nova descoberta sobre obesidade reescreve décadas de ciência da gordura

Durante décadas, os cientistas acreditaram ter compreendido uma das principais proteínas do corpo para queimar gordura. Conhecida como lipase sensível a hormônios, ou HSL, pensava-se que a enzima funcionava principalmente como interruptor de combustível de emergência do corpo, ajudando a liberar a gordura armazenada quando a energia está baixa.
Mas os pesquisadores descobriram algo inesperado. O HSL não estava trabalhando apenas na superfície das gotículas de gordura dentro das células adiposas. Também operava nas profundezas do núcleo dessas células, onde o DNA é armazenado e importante atividade genética é controlada. A descoberta revelou um lado totalmente diferente de uma proteína que os cientistas estudavam desde a década de 1960.
As descobertas, publicadas em Metabolismo Celularajudou a resolver um mistério de longa data na pesquisa sobre obesidade e abriu novas direções para a compreensão do diabetes, doenças cardíacas e outros distúrbios metabólicos.
As células de gordura fazem muito mais do que armazenar calorias
As células de gordura, também chamadas de adipócitos, são frequentemente vistas como recipientes passivos de armazenamento de calorias em excesso. Na realidade, são células altamente ativas que ajudam a regular todo o sistema energético do corpo.
Dentro dos adipócitos, a gordura é armazenada em estruturas chamadas gotículas lipídicas. Quando o corpo precisa de combustível entre as refeições ou durante o jejum, hormônios como a adrenalina desencadeiam a liberação dessa energia armazenada. O HSL desempenha um papel central neste processo, decompondo os triglicerídeos em ácidos graxos que outros órgãos podem usar como combustível.
Os cientistas há muito presumiam que a remoção do HSL evitaria a degradação da gordura e levaria à obesidade. Surpreendentemente, não foi isso que aconteceu.
Estudos em ratos e pessoas com mutações no gene HSL mostraram o efeito oposto. Em vez de acumular gordura extra, desenvolveram lipodistrofia, uma condição rara em que o corpo perde tecido adiposo saudável.
Essa contradição intrigou os pesquisadores durante anos.
Obesidade e perda perigosa de gordura compartilham problemas semelhantes
Embora a obesidade e a lipodistrofia pareçam completamente diferentes, elas podem produzir muitas das mesmas complicações de saúde.
Na obesidade, o tecido adiposo torna-se aumentado e disfuncional. Na lipodistrofia, o corpo carece de tecido adiposo funcionando adequadamente. Em ambos os casos, os adipócitos não conseguem regular a energia normalmente, o que pode contribuir para a resistência à insulina, diabetes tipo 2, doença hepática gordurosa, inflamação e problemas cardiovasculares.
Essa sobreposição sugeriu que o tecido adiposo saudável não se trata apenas da quantidade de gordura que o corpo carrega. A qualidade e a função das células adiposas podem ser igualmente importantes.
Pesquisadores do Instituto de Doenças Cardiovasculares e Metabólicas (I2MC) da Universidade de Toulouse queriam entender por que a perda de HSL fazia com que o tecido adiposo se quebrasse em vez de se acumular. O que eles descobriram mudou o quadro científico do metabolismo da gordura.
Cientistas descobrem HSL dentro do núcleo celular
A equipe de pesquisa, liderada por Dominique Langin, descobriu que o HSL estava localizado em um local inesperado dentro dos adipócitos: o núcleo.
O núcleo atua como centro de controle da célula. Ele contém DNA e regula quais genes são ativados ou desativados. As proteínas encontradas no núcleo geralmente ajudam a controlar o crescimento, o reparo, o metabolismo e a comunicação celular.
“No núcleo dos adipócitos, o HSL é capaz de se associar a muitas outras proteínas e participar de um programa que mantém uma quantidade ideal de tecido adiposo e mantém os adipócitos ‘saudáveis’”, explicou Jérémy Dufau, coautor do estudo.
Os investigadores descobriram que a HSL nuclear parece ajudar a regular sistemas celulares importantes, incluindo a actividade mitocondrial e a matriz extracelular, que fornece suporte estrutural aos tecidos.
As mitocôndrias são frequentemente chamadas de usinas de energia das células porque geram energia. A matriz extracelular ajuda a manter a forma e a integridade dos tecidos. Problemas em ambos os sistemas têm sido associados à obesidade, inflamação e doenças metabólicas.
Uma proteína com duas funções muito diferentes
O estudo mostrou que o HSL se comporta de maneira diferente dependendo de onde está localizado dentro da célula.
Nas gotículas lipídicas, o HSL atua como uma enzima que ajuda a liberar a gordura armazenada durante o jejum ou exercício. No núcleo, porém, parece funcionar mais como um regulador que ajuda a manter o tecido adiposo saudável.
Os pesquisadores também descobriram que a quantidade de HSL dentro do núcleo muda em resposta ao estado metabólico do corpo.
Durante o jejum, a adrenalina ativa o HSL e o empurra para fora do núcleo para ajudar a mobilizar os estoques de gordura. Em ratos obesos alimentados com uma dieta rica em gordura, os níveis de HSL nuclear aumentaram.
O movimento da proteína parece ser controlado por vias de sinalização envolvendo TGF-β e SMAD3, moléculas já conhecidas por influenciarem a inflamação, a remodelação tecidual e as doenças metabólicas.
Os cientistas também encontraram evidências de que o HSL nuclear interage com proteínas envolvidas na expressão genética e no processamento de RNA, sugerindo que pode influenciar diretamente o modo como as células adiposas funcionam a nível genético.
Por que a descoberta é importante
As descobertas ajudaram a explicar por que a deficiência completa de HSL causa lipodistrofia em vez de obesidade. Sem HSL no núcleo, as células adiposas podem perder a capacidade de permanecer saudáveis e de manter adequadamente o tecido adiposo.
“O HSL é conhecido desde a década de 1960 como uma enzima mobilizadora de gordura. Mas agora sabemos que também desempenha um papel essencial no núcleo dos adipócitos, onde ajuda a manter o tecido adiposo saudável”, disse Langin.
A descoberta também pode ajudar os pesquisadores a entender melhor por que alguns tratamentos para obesidade são bem-sucedidos e outros falham. Muitas terapias atuais concentram-se principalmente na redução da massa gorda. Mas o estudo sugere que preservar a função saudável do tecido adiposo pode ser igualmente importante.
Os cientistas estão reconhecendo cada vez mais que o tecido adiposo atua como um órgão endócrino complexo que se comunica com o cérebro, o fígado, os músculos e o sistema imunológico através de hormônios e moléculas sinalizadoras. O tecido adiposo disfuncional pode perturbar o corpo muito além do ganho de peso sozinho.
A obesidade continua a ser um desafio global para a saúde
A pesquisa chega no momento em que as taxas de obesidade continuam a aumentar em todo o mundo. De acordo com estimativas globais, milhares de milhões de pessoas têm actualmente excesso de peso ou são obesas, aumentando o risco de diabetes, doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, apneia do sono e alguns tipos de cancro.
Os pesquisadores esperam que a compreensão de como proteínas como a HSL regulam a saúde das células adiposas possa eventualmente levar a terapias mais direcionadas para doenças metabólicas.
Em vez de simplesmente tentar eliminar a gordura, os tratamentos futuros podem concentrar-se em restaurar a função normal dos adipócitos e proteger os sistemas biológicos que mantêm o tecido adiposo saudável em primeiro lugar.
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