Cientistas podem ter descoberto a chave do cérebro para dor crônica

Uma nova pesquisa da Universidade do Colorado em Boulder aponta para um circuito cerebral pouco conhecido que pode determinar se a dor de curto prazo desaparece ou se torna um problema duradouro. Os resultados sugerem que esta via desempenha um papel fundamental na transformação da dor temporária em dor crónica que pode persistir durante meses ou mesmo anos.
O estudo, realizado em animais e publicado no Journal of Neuroscience, concentrou-se em uma região chamada córtex insular granular caudal (CGIC). Os pesquisadores descobriram que desligar esse circuito pode prevenir o desenvolvimento da dor crônica e interrompê-la depois que ela já tiver começado.
“Nosso artigo usou uma variedade de métodos de última geração para definir o circuito cerebral específico crucial para decidir se a dor se torna crônica e dizer à medula espinhal para executar esta instrução”, disse a autora sênior Linda Watkins, distinta professora de neurociência comportamental na Faculdade de Artes e Ciências. “Se este decisor crucial for silenciado, a dor crónica não ocorre. Se já estiver em curso, a dor crónica desaparece.”
Novas ferramentas impulsionando uma “corrida do ouro da neurociência”
O trabalho surge em um momento de rápido progresso na pesquisa do cérebro. O primeiro autor, Jayson Ball, descreve o momento atual como uma “corrida do ouro da neurociência”, impulsionada por ferramentas avançadas que permitem aos cientistas controlar com precisão grupos específicos de células cerebrais.
Com essas técnicas, os pesquisadores podem agora identificar as vias neurais exatas envolvidas em condições complexas como a dor crônica. Este nível de detalhe poderia ajudar a orientar o desenvolvimento de novos tratamentos, incluindo infusões direcionadas ou interfaces cérebro-máquina, que podem oferecer alternativas mais seguras aos medicamentos opioides.
“Este estudo acrescenta uma folha importante à árvore do conhecimento sobre a dor crónica”, disse Ball, que obteve o seu doutoramento no laboratório de Watkins em Maio e agora trabalha para a Neuralink, uma startup com sede na Califórnia que desenvolve interfaces cérebro-máquina para a saúde humana.
Quando os sinais de dor não desligam
A dor crônica é um problema generalizado. De acordo com os Centros de Controle de Doenças, cerca de um em cada quatro adultos sofre com isso e quase um em cada 10 afirma que interfere em suas vidas diárias.
Uma característica comum da dor relacionada aos nervos é a alodinia, uma condição na qual mesmo um leve toque pode causar dor.
A dor de curto e longo prazo se comporta de maneira muito diferente. A dor aguda atua como um sinal de alerta, começando quando o tecido lesionado, como uma topada no dedo do pé, envia mensagens através da medula espinhal para o cérebro. A dor crônica, entretanto, continua mesmo após a cicatrização da lesão, criando uma espécie de alarme falso que pode durar semanas, meses ou anos.
“Por que e como a dor não resolve, deixando você com dor crônica, é uma questão importante que ainda está em busca de respostas”, disse Watkins.
Visando a via cerebral que sustenta a dor
Trabalhos anteriores do laboratório de Watkins em 2011 apontaram o CGIC como um participante importante na sensibilidade à dor. Essa pequena região, do tamanho aproximado de um cubo de açúcar, está localizada nas profundezas da ínsula, uma parte do cérebro envolvida no processamento de sensações. Estudos em pessoas mostraram que esta área tende a ser hiperativa em pessoas com dor crônica.
Até recentemente, estudar detalhadamente esta região era difícil porque a única forma de afetá-la era removê-la, o que não é uma opção de tratamento realista.
No novo estudo, a equipe usou proteínas fluorescentes para rastrear quais células nervosas se tornaram ativas depois que um rato sofreu uma lesão no nervo ciático. Eles então aplicaram métodos “quimiogenéticos” avançados para ativar ou desativar genes específicos em neurônios selecionados.
Os resultados mostraram que o CGIC não é muito importante para lidar com a dor imediata, mas é essencial para manter a dor ao longo do tempo.
Como o cérebro mantém a dor viva
Os pesquisadores descobriram que o CGIC envia sinais ao córtex somatossensorial, a parte do cérebro que processa o toque e a dor. Essa área então se comunica com a medula espinhal, instruindo-a efetivamente a continuar transmitindo sinais de dor.
“Descobrimos que a ativação desta via excita a parte da medula espinhal que transmite o toque e a dor ao cérebro, fazendo com que o toque também seja percebido como dor”, disse Ball.
Quando os cientistas desligaram esta via logo após a lesão, os animais sentiram apenas uma dor breve. Nos casos em que a dor crônica já havia se desenvolvido, a desativação do circuito fazia com que a dor parasse.
“Nossa pesquisa apresenta um caso claro de que vias cerebrais específicas podem ser direcionadas diretamente para modular a dor sensorial”, disse Ball.
Rumo a novos tratamentos para dor crônica
Os investigadores ainda não sabem o que faz com que o CGIC comece a enviar sinais de dor persistente, e são necessários mais estudos antes que estas descobertas possam ser aplicadas às pessoas.
Mesmo assim, o trabalho aponta para novas possibilidades de tratamento. Ball prevê um futuro em que os médicos utilizem injeções ou infusões direcionadas para afetar células cerebrais específicas, sem os efeitos colaterais generalizados e o risco de dependência associados aos opioides. Ele também sugere que as interfaces cérebro-máquina, sejam implantadas ou usadas externamente, poderiam ajudar a controlar a dor crônica intensa.
“Agora que temos acesso a ferramentas que permitem manipular o cérebro, não apenas com base numa região geral, mas em subpopulações específicas de células, a busca por novos tratamentos está a avançar muito mais rapidamente”, disse ele.
Source link




